quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Welcome to the desert of the real."

Gosto muito desse poema de Álvaro de Campos (aka. Fernando Pessoa). Recentemente mais do que nunca, estou me lendo nele...

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Recente eu assisti o filme “Amor sem escalas” (Up in the air) (ô tradução infeliz!) e achei muito bom, recomendo!
Então, eu estava cá com meus botões pensando e percebi um paralelo entre as duas obras.
A mala.
A mala é o nexo entre as duas histórias, mas a relação do protagonista do filme com a mala é diametralmente inversa à relação do protagonista do poema. O personagem de George Clooney é um verdadeiro tuareg, abraçou a mala e está feliz com a sua vida no deserto dos aeroportos (ao menos inicialmente). Já o poeta resiste à mala. Fica prostrado diante dela, talvez por não ter assistido ao seminário de Clooney. hehe
“If there’s a point in this, you should be getting to it.”
(me amarro nessa frase) O meu ponto é que, as posições dos dois protagonistas, apesar de aparentemente opostas, são bastante similares. Os dois resistem à bagagem, a diferença é que um professa o abandono da carga dos relacionamentos e o outro resiste à colocá-los em sua mala. Os dois vivem no deserto, mas um está mais conformado com isso do que o outro (resta saber qual). ;-)
A verdade é que os desertos (assim como as árveres (sic)) somos nós, e só contato com outras pessoas tem o poder de trazer breves mudanças de scenarium. Aqui falo de contatos de verdade, não é dar bom dia pro porteiro, é partilhar, trocar, se abrir.
Eh, meus amigos, não é mole não. Por isso essas são tão breves e raras, e por isso tanta gente prefere viver no deserto. Eu mesmo estou cansado.:-/

2 comentários:

Marco Romer disse...

Muito legal seu blog, Peroni! :) Visitarei sempre! Abração, cara!

Tatiana Guedes disse...

muito bom o blog!